Um mapa para se perder
Zine de viagem
Com o mapa de um lugar desconhecido, podemos descobri-lo antes de chegar. Como girar um globo terrestre e apontar num ponto aleatório pra decidir o destino da próxima viagem.
Quando fiz meu intercâmbio na França, ali nos anos 2010, a internet ainda não estava a pronta disposição dentro do meu bolso. Meu celular era cheio de botões com uma pequenina tela e nossos percursos eram mediados por mapas de papel. Mochilando pela Europa, ia coletando mapas das cidades e marcando os lugares que queria visitar e os cantos que já tinha ido, onde era o nosso albergue e o caminho até o metrô mais próximo. Usei tanto mapas para me locomover, que me acostumei a desenhar um mapa na minha cabeça toda vez que chego num novo lugar. Como num vídeo-game, desbravando uma área desconhecida e ampliando a geografia mental. Substituindo o vazio por novos espaços.
Viajar com mapas era uma aventura. Uma caça ao tesouro atrás dos pontos turísticos que estávamos procurando. Um por um íamos marcando um X de caneta nos lugares já visitados. Ainda uso mapas hoje em viagens, e muito. Mapas digitais e virtuais. Baixo no aplicativo a geografia da cidade e marco os pontos principais que vou frequentar. Busco as rotas de transporte público e se dá pra fazer o trajeto a pé. Mas nesse mapa não deixo rastro de caneta.
Não guardei os mapas que usava nessas viagens, eles ficavam tão riscados e gastos que eu descartava como lixo e pegava um novo no ponto de informações turísticas pra “guardar de lembrança”. Ou, de maneira antecipada, já pegava dois desde o começo: um pra usar e um pra guardar. O de usar eu gastava sem dó. Ah, como hoje eu queria ter acesso àqueles mapas riscados até rasgar o papel como o souvenir original! Um registro palpável dos meus percursos, a marcação dos lugares que visitei, as ruas por onde passei, os parques onde descansei.
Que mapa faríamos da nossa cidade nesses termos mais sinceros? Walter Benjamin falava em criar mapas para registrar seus amores, bancos de sentar, parques e cemitérios, como pontos muito mais notórios de uma cidade do que uma atração turística. Para o morador local, não é aquele ponto turístico que ele mais gosta de frequentar, mas um bar, uma praça, uma livraria ou uma lanchonete. No meu mapa pessoal, o ponto de maior destaque é a minha própria casa, o marco zero da minha cidade, de onde meço todas as distâncias.
Esse semestre, na disciplina de Laboratório de Criação, fizemos muitos exercícios variados a partir do tema central CIDADE. Objetos, paisagens, retratos, cotidiano. Como um dos últimos exercícios semanais, a professora Camila Storck pediu que fizéssemos um mapa, no mínimo em tamanho A3. Numa disciplina anterior eu já tinha criado um mapa mais clássico, com os pontos turísticos do Recife Antigo que eu mais gostava e algumas outras paisagens marcantes dos arredores. Pensei em fazer dessa vez um mapa afetivo, não tão literal, talvez algo mais abstrato. Só que eu nem sou muito do abstrato.
Enquanto lia sobre Arte Conceitual, caí nos poemas da Yoko Ono e fiquei mesmerizada com suas instruções. Gosto muito do formato de poema de instruções (como faz Júlio Cortázar e como experimentei essa vez), e adoro livros de atividades que convidam o leitor a fazer uma outra coisa. Fiquei pensando nisso de incentivar o outro a criar seu mapa subjetivo, fugindo da cartografia tradicional, para assim me incentivar também. Não lembro exatamente de ter lido esse poema de mapa da Yoko, mas tive a ideia do mote (um mapa para desorientar) e pesquisando quem já tinha usado essa ideia (eu não poderia ser a primeira a tê-la) encontrei o poema dela. Ele já devia estar no fundo da minha cabeça.
PEÇA DE MAPADesenhe um mapa para perder-se.Primavera de 1964Yoko Ono
A Keri Smith, que é famosa pelo Destrua esse diário, tem outros dois livros que são os que eu gosto mesmo. (Não consigo destruir o diário, todos os exercícios ali são tortura para mim.) Em Como ser um explorador do mundo (tradução minha, infelizmente não tem no Brasil), ela convida o leitor e agente a descobrir o mundo ao seu redor com todos os seus sentidos, e investigar as possibilidades de se perder nessa busca. Tem propostas de expedições maravilhosas que, ainda que eu não as siga a risca, servem de referência pra enxergar a cidade com uma lente diferente. É mais divertido ver tudo como uma aventura. (O outro livro, Guerilla Art Kit, é conversa pra outra edição!)
Então resgatei os mapas do meu intercâmbio, encontrei vários. Mapas de cidades que eu sequer visitei, mas peguei pra guardar. Mapas coloridos, divertidos, cheios de pontos turísticos clássicos e inusitados. Mapas que me deram vontade de viajar.
Os mapas dessa coleção (“mapa gratuito para jovens viajantes”) têm todos uma seção COMPORTE-SE COMO UM LOCAL, com dicas sob medida para se mimetizar em cada cidade. Em Bruxelas, as duas primeiras recomendações são que a cidade é feia mesmo e eles a amam assim mesmo e que o importante é se sentir à vontade, ser você mesmo principalmente se você é esquisito. Tenho um segundo mapa de Bruxelas com o Tintim passeando pela cidade, com cenas dos quadrinhos. Em Lovaina, na Bélgica, entre dicas de cafés, bares gay e museus, o número 59 aponta “a árvore mais feia” e o 60 “o menor parque”. No mapa do Porto, eu circulei o número 14, uma dica de loja de quadrinhos, o número 57, a terceira livraria mais bonita do mundo e o número 68, uma torre barroca. Um dos parágrafos da introdução explica o protocolo de beijos: talvez apenas um seja aceitável, mas o padrão é sempre dois, nunca mais que isso, além de várias outras dicas de moradores locais.
Não viajo mais tanto como fiz na época do intercâmbio ou quando era engenheira, mas ainda sou devota de viagens pra lembrar como o mundo é vasto e se encantar com uma rotina diferente. O que mais gosto de uma viagem é essa experiência de um cotidiano novo, que você fica achando que poderia ser o seu se você fosse um local, mas na verdade é tudo uma ilusão do turista. Agora imagine se pudéssemos emular a experiência de ser um turista na sua própria rotina.
Com esses pontos de referência, desenhei o meu mapa:
Minha amiga Teresa me pediu esse mapa para usar na viagem dela pra Indonésia. Eu aproveitei e trouxe aqui na minha para Cordisburgo, MG (estou chegando hoje!). Vamos testar e ver no que dá. Vambora se perder?
Pra quem gosta de mapas, deixo vocês com mais três leituras. Esta newsletter em espanhol toda sobre cartografias que tem um acervo fantástico:
esse texto da Luisa que parece um mapa:
e um conto de Borges para inspirar uma cartografia de grandes dimensões.
Da Impossibilidade de Construir a Carta do Império em Escala Um Por Um
“... Naquele império, a Arte da Cartografia chegou a tal Perfeição que o Mapa de uma Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas desmesurados já não bastavam mais. Os Colégios de Cartógrafos elaboraram um Mapa do Império que linha a imensidão do próprio Império e coincidia perfeitamente com ele. Mas as Gerações Seguintes, menos afeitas ao Estudo da Cartografia, pensaram que este Mapa enorme era inútil e, não sem Impiedade, abandonaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Ocidente ainda sobrevivem Ruínas dilaceradas do Mapa, habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País, não existe nenhuma outra Relíquia das Disciplinas Geográficas.”
(Tirado de Viajes de Varones Prudentes, de Suárez Miranda, livro IV, cap. XIV, Lérida, 1658. Citado por Jorge Luís Borges, História universal da infâmia “Etc. “.)
Agradeço o carinho que recebi na última edição, contando dos primeiros livros infantis que ilustrei. Chegou gente nova desde então e dou as boas-vindas!
Por aqui gosto de falar dos meus processos criativos, mas também de outras coisas que vou vivendo paralelamente, e conectando com o desenho. Eu estou cada dia mais pensando na ideia de iniciar uma assinatura paga aqui na plataforma, mas ainda não decidi ao certo quais seriam as recompensas. É algo que eu me sinto bem resistente, meu desejo é compartilhar os meus processos e criações para chegar no máximo de pessoas possível, de maneira livre e gratuita. Mas, por outro lado, eu adoro dedicar tempo aqui, e gostaria até de me dedicar mais. Então acho que faz sentido aceitar algo em troca. O que vocês gostariam de saber mais que faria sentido numa assinatura paga? A maior parte da newsletter continuaria gratuita (sem dúvida!), mas poderia fazer mais tutoriais ou detalhar meu processo criativo, edições que demandam mais tempo e dedicação. Posso fazer pequenos tutoriais de pop-up, diferentes dobras de zines, mais técnicas de encadernação, contar dos meus projetos de livro, de bordado e de costura… Me escrevam com o que acham? Estou amadurecendo essa ideia.
Abraços viajantes,
Jana












que edição incrível!!!!! teve um ano da minha vida que uma das minhas metas era uma viagem por mês, contando viagens longas e pela região, comecei a entender a viagem como um espaço de presença mesmo que com curto deslocamento, e isso me expandiu pra ter esse olhar de turista pro cotidiano. ano passado fui morar numa cidade turística e pra mim era esse papo o tempo inteiro na minha cabeça de "ser local" com "isso aqui é lindo demais pra só passar batido".
Jana de mi corazón, traga esse também pra Feira Passagem, plissss! Sigo sendo sua fã, a cada novidade que você cria!