Desconectada
Meu celular foi furtado e eu quis desistir de ter um
Olá, terráqueos!
Dois anos atrás meu celular foi furtado e no mesmo dia escrevi o texto desse quadrinho. É o tipo de coisa que você vive, você pensa um monte na sua cabeça e logo em seguida entende: isso vai virar um quadrinho. A boa notícia é que eu consegui recuperar a maior parte das fotos! Obrigada, Nossa Senhora do Backup. Descobri que não tinha perdido todas as milhares (não é hipérbole) de fotografias que eu estava repassando diariamente na minha cabeça com um cartaz de PROCURA-SE. Durante 10 dias, eu achei que não tinha backup automático e que tinha perdido todas elas, mas o iCloud me provou o contrário e eu amei morder a língua. Pra não dizer que deu tudo certo, eu ainda perdi algumas centenas de fotos. E um aparelho de celular que ainda funcionava bem.
Em novembro de 2018, quando eu comprei esse celular que em agosto de 2023 o dono levou, quando eu virei uma comunista de iPhone, antes de fazer toda a migração do meu antigo celular capenga pro novo, eu fiz uma viagem de bicicleta e decidi levar meu celular novo sem nenhum aplicativo instalado. Ele só servia para fazer ligações, trocar mensagens via SMS e tirar fotos. Na ocasião, avisei todos os meus amigos e família que estaria fora do zap. Era uma viagem de apenas 4 dias, mas demorar mais do que um dia para responder com aquela setinha única na mensagem enviada já seria motivo de estranheza e preocupação. E eu não conseguiria instalar o aplicativo e não abri-lo durante quatro dias. Quando você tem uma curiosidade compulsiva, é melhor tirar o que puder da sua frente.
Naquela viagem, me senti conectada com os meus arredores como não me sentia há bastante tempo. Com a natureza, com o mar, com as minhas companheiras de viagem, Sam e May, com a bicicleta. Não sei se me senti tão conectada com o mundo em outra ocasião desde então. Na época eu estava vivendo um momento muito específico da vida em que estava exatamente onde eu queria estar. É mágico, e sinto que estou sempre buscando reencontrar esse sentimento. Naquela viagem, eu tive um vislumbre do que o meu aplicativo de meditação tenta me fazer alcançar, a felicidade genuína.
Como replicar aquelas circunstâncias tão específicas no agora, em outra cidade, com outra atmosfera, com novas memórias? Os últimos anos foram períodos de angústia, ansiedade, insatisfação. Teve pandemia, teve necropolítica, teve meu retorno de Saturno pessoal, um pedido de demissão e um recomeço cheio de inseguranças. Naquela ocasião, eu estava começando a encontrar um espaço de felicidade tranquila e alívio, até acontecer o bendito furto. Enquanto (provavelmente) alguém colocava discretamente a mão no bolsinho da minha mochila, eu estava não ironicamente pensando nas coisas que tinha feito naquele dia e em como me sentia satisfeita em estar vivendo isso.
Tenho visto um movimento de pessoas saindo ou diminuindo bastante o uso de redes sociais. E por outro lado também vejo pessoas cada vez mais adictas do celular sem conseguir se desvencilhar do aparelho. Tantas vezes tenho a impressão forte de que ele me rouba um tempo que não volta mais. Um tempo que eu queria pra mim e de alguma forma terminou nas mãos das Big Techs vilãs malvadas com suas estratégias que replicam caça-níqueis. Aposto minhas fichas de tempo e perco todas elas. Não existem memórias do tempo passado no celular. É um tempo gasto inutilmente, mas que não relaxa de fato. Em vez de ociosa, fico ansiosa.
Minha vontade de sair das redes sociais vem, vai e volta, ora mais forte ora mais esquecida ora impotente frente às necessidades da vida moderna. Não porque não gosto delas, tenho muitas amizades a distância e adoro acompanhar artistas que admiro. Tem tanta coisa interessante ali. Coisa demais. Propagandas, vídeos imperdíveis, memes essenciais, receitas inesquecíveis, tantos conteúdos e assuntos e contextos que eu tento acompanhar e não dou conta. Meu cérebro dá conta de tanto assunto? De tanta conversa, tanta notícia, tanto ruído. Eu bem queria saber o que todos os meus amigos e família e pessoas que admiro fizeram nos seus dias, mas talvez seria mais legal não saber. Aí eles podem me contar.
Quando eu recuperei minhas fotos, o alívio foi tão grande que quase comprei um novo celular imediatamente no minuto seguinte pra recomeçar tudo de novo. Não precisava transformar a dor em aprendizado. Podia acabar minha birra, olha como ele era bonzinho e me protegeu do rombo das fotos. Olha, ele estava do meu lado o tempo todo. A tecnologia é sempre boa!
Em vez disso, peguei pra usar um velho celular da casa com tela rachada que só servia pra tocar música e comecei a andar com ele. Demorei a instalar o Instagram, e mesmo quando o fiz não senti vontade de ficar muito tempo porque a interface e a lentidão são belos obstáculos. Fiz esse quadrinho. Eita como foi bom ter ficado esse tempo “sem” “celular". Como é agradável e calmante o silêncio de estar fora do Whatsapp. Acordar e não olhar as redes logo após abrir os olhos traz uma paz mental pela ausência do excesso de informações que combina bastante com o despertar do dia.

A ferramenta celular traz a ilusão de que auxilia a comunicação. No meu período sem celular, claro que percebi a deterioração dela. Um combinado feito pontualmente precisa ser redobrado e checado e confirmado até a hora exata do compromisso. Se você tiver marcado algo e não confirmar que saiu de casa, que está a caminho, que chegou, podem achar que você não vai, podem esquecer o combinado, podem esquecer de você. Vi combinados que eu tinha feito caírem por terra porque eu não reafirmei o combinado de novo pela terceira vez. A atenção toda picotada.
Logo depois do furto, com o tempo que eu ganhei nos meus dias, eu comecei um diário ilustrado. Dia após dia, desenhava em um quadrinho algo para representar o que tinha vivido. Em vez de tirar fotos ou fazer vídeos, eu desenhava. O projeto durou 1 ano e meio, e esse ano parei para tocar outros projetos. Um deles foi voltar a ficar mais tempo no celular, e nas últimas semanas tenho conseguido ficar bastantes horas. Hábitos que voltam. Tenho que tomar cuidado pra não vir outro furto pra eu ter que aprender a lição de novo, porque parece que esqueci. A vida achatada que a gente vivencia pelas telas é, na verdade, bem mais entediante que a vida real. Não tem gosto, não tem cheiro, não tem toque. Como é que a gente se deixa enganar por ela?
Para ler mais, se você gosta do tema, tem a bíblia da resistência à economia da atenção How to do nothing da Jenny Odell, os dez questionamentos da não-produtividade, que em português foi tristemente traduzido pra um título que é tudo o que ele não é (“Resista! Não faça nada! A batalha pela economia da atenção” [barulho de tiro e sirene]). Provavelmente é o livro que eu mais grifei trechos na minha vida. Meu leitor digital contabiliza 104 marcações. A autora questiona o espaço dos celulares na nossa vida atual, a que servem, se servem a nós ou nós servimos a eles. Ela nos convoca a reivindicar nossa atenção. Mais do que nosso tempo, onde queremos depositar nossa atenção?
Desconectada foi meu lançamento no FIQ 2024, e agora tô trazendo aqui pra newsletter porque o tema continua tão atual e queria compartilhar com vocês. Se você quiser apoiar o meu trabalho, pode adquirir o quadrinho físico na minha lojinha, estou com os últimos exemplares da primeira tiragem. Eu mudei um pouquinho o texto antes de trazer pra cá, porque artista é assim, não resiste a uma edição do próprio trabalho. Se preferir, pode também fazer um pix e me pagar uma tapioca! A chave é o email esmeraldojanaina@gmail.com. A artista independente agradece e seguirá desenhando dentro e fora de telas.
Abraços virtuais,
Jana























Adorei o quadrinho e a reflexão!
Linda postagem. A vida com menos celular é mais bela.